MANIFESTO KARNIÇA BIKE

Esse manifesto vem em tempo, quando nosso colega foi atropelado ao pedalar em nossas estradas sem acostamento, sem infraestrutura ou apoio ao ciclista. E precisamos falar nisso, para não tapar o sol com a peneira e continuar pedalando sem considerar o óbvio: você poderá ser o próximo! Por mais que tenhamos cuidado, acessórios e horários diferenciados, não nos isenta do risco. Cabe ressaltar que mesmo as trilhas fora de estrada, muitas vezes passam antes em um trecho de estrada! Abandonar a bike não é uma possibilidade, então só resta a opção: lutar por estrutura, políticas de mobilidade urbana e pra isso… Mobilização!

Segundo Bernardo Toro mobilizar é “convocar as vontades em torno de uma causa comum”, então é preciso pensar sobre vontades e causas comuns: qual o seu propósito quando você sobe numa bike? Já pensou nisso? Existem causas comuns entre os grupos de ciclistas e pedaleiros ou o individual prevalece sobre as questões coletivas?

Ouço relatos sobre divisão de grupos de ciclistas nesta cidade: falta participação, integração (associativismo) e vejo, sinceramente, poucas iniciativas de inclusão e mobilização. Essas reflexões nos ajudaram a escolher outro caminho, centrando energia em ações destinadas às políticas que visam a segurança e estrutura para o ciclismo e, prioritariamente, a inserção de novos praticantes. Me surpreendeu, ao chamar de pedaleiro um rapaz que ia ao trabalho, de bike fixa, e ouvi do colega: “esse não tem nada de pedaleiro”. Ou seja, como disse Renata Falzoni (Bike é Legal), existem os que pedalam por opção e outros por falta de opção. Criamos assim… hierarquias! Inclusive entre experientes e iniciantes, pois a despeito da cooperação existente nos passeios, são exceção os eventos que buscam a difusão do esporte, principalmente, entre os que usam a bike como transporte. Será que estamos indo em direção à elitização?

Haveria uma certa alienação ao rodar em bikes caríssimas em uma cidade sem estrutura, acostamento e ciclovias, ou sem considerar a mobilização em torno de causas comuns? Às vezes o propósito de pedalar melhor, mais rápido, mais longe pode levar há uma competição exacerbada e a exclusão dos iniciantes. Vejo os recordes de trecho, os compartilhamentos de tempo e questiono se atingir um KOM[1] pode ser o único sentido do ciclismo? Respeito o desejo de progredir e melhorar sua performance porém, a competição nos distancia da cooperação e de um propósito maior: o fortalecimento do movimento ciclista. Talvez um dia tornemos a bike um meio de transporte viável e seguro.

Enfim, é neste contexto que surge o Karniça Bike, em meio a tantos outros grupos, para ocupar o segmento pouco explorado: o da inclusão e do fomento ao ciclismo. Como faz o Bike Anjo, queremos a inserção de novos, a valorização de todos os que pedalam, em qualquer bicicleta e mesmo com diferentes propósitos.

Nossa proposta, registrada nesse manifesto, é a de cooperar antes de competir, de incluir em vez de hierarquizar e lutar pelo desenvolvimento de estruturas para o ciclismo a partir da ampliação de praticantes e da mobilização em torno de causas comuns.

Reiteramos que, embora pouco lembrado, a bike é importante para um planeta sustentável: um meio de transporte ecológico e saudável. Nosso grupo tem como foco a difusão do esporte, a melhoria da saúde e a luta para que se torne meio de transporte. Priorizamos passeios inclusivos, a cooperação intra e intergrupal e a mobilização para a criação de estruturas para o uso seguro da bicicleta em nossa cidade e região.

Se há diferentes interesses no ciclismo, respeitamos quem pretende ser bruto ou galático, mas nossa prioridade são os peba, que apesar da simplicidade dos materiais, são essenciais para a ampliação e fortalecimento do movimento e consequente pressão por melhores estruturas.

A competição em nosso grupo é pessoal e o coletivo é sempre cooperativo. Aprender sobre a bike e buscar aperfeiçoá-la é importante, mas não é preciso de grandes investimos para alcançar nossos objetivos: simplicidade e companheirismo.

Fonte: Tarciso Botelho, ciclista do Karniça Bike.

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[1]     King of Montain (KOM/QOM) é recorde estabelecido pelo ciclista que usa o APP Strava em comparação com outros praticantes que usam o mesmo sistema.


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